Projeto de pesquisa, UFRN
SAÚDE MENTAL, GÊNERO E VIOLÊNCIA: ANÁLISE DOS DISCURSOS DE ADOLESCENTES EM CONTEXTO VIRTUAL DE ACOLHIMENTO
Descrição
A saúde mental de adolescentes e jovens tem ocupado lugar de destaque no cenário brasileiro, especialmente após a pandemia da COVID-19, em razão do aumento de casos de depressão, automutilação e tentativas de suicídio. Nesse contexto, torna-se urgente o fortalecimento de ações de promoção e prevenção em saúde mental no âmbito educacional. Vinculado ao Centro de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o projeto de extensão “Saúde Mental na Escola: construindo possibilidades pedagógicas” desenvolve ações desde 2023, após a adesão institucional à Rede Pode Falar, iniciativa mantida pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e pelo Ministério da Saúde. A partir dessa parceria, a UFRN assumiu o compromisso de promover ações permanentes de extensão, formação e pesquisa voltadas ao cuidado integral de adolescentes e jovens, contribuindo para a qualificação de profissionais e para o aprimoramento de políticas públicas. O projeto atua em duas frentes complementares: a oferta de escuta acolhedora a adolescentes e jovens de 13 a 24 anos por meio da plataforma virtual Pode Falar e o desenvolvimento de intervenções formativas em escolas públicas de Natal, região metropolitana e na própria universidade. As experiências acumuladas ao longo de três anos de atividades evidenciaram a centralidade das questões de gênero na compreensão do sofrimento psíquico juvenil. Os atendimentos realizados no canal demonstram que meninas, especialmente meninas negras, constituem o grupo que mais procura o serviço para relatar dores emocionais, frequentemente associadas a experiências de violência, discriminação e violações de direitos. Tais dados revelam a influência dos marcadores sociais de gênero, raça e classe na produção do sofrimento psíquico e denunciam fragilidades das instituições responsáveis pela proteção integral de crianças e adolescentes. Partindo desse cenário, a presente pesquisa tem como objetivo compreender como questões de gênero e violência atravessam a construção das narrativas sobre sofrimento psíquico de adolescentes atendidos em contextos virtuais de acolhimento, considerando os processos de subjetivação, acolhimento e resistência produzidos nesses espaços. Fundamenta-se em uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, ancorada em referenciais foucaultianos e psicanalíticos, articulados às contribuições dos estudos de gênero. O referencial teórico dialoga com autores como Michel Foucault, Judith Butler, Heleieth Saffioti e Guacira Louro, buscando compreender as relações entre poder, discurso, corpo, violência e produção de subjetividades. Metodologicamente, a investigação será desenvolvida em duas etapas. A primeira compreenderá revisão bibliográfica, pesquisa documental e análise das narrativas produzidas no ambiente virtual de acolhimento do Canal Pode Falar. A segunda consistirá em um estudo de caso realizado em uma escola pública da rede estadual de Natal, envolvendo entrevistas e grupos focais com estudantes de 13 a 18 anos. Espera-se que os resultados contribuam para ampliar o debate acadêmico sobre as relações entre saúde mental, juventudes, gênero e violência, além de subsidiar práticas educativas e políticas públicas voltadas à promoção da saúde mental e à garantia dos direitos de adolescentes e jovens em contextos escolares e digitais de cuidado.
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