Projeto de pesquisa, UNIFAP
LEVANTAMENTO ENTOMOLÓGICO DE ESPÉCIES DE TRIATOMÍNEOS ASSOCIADAS À FLORA ARBÓREA DE VÁRZEA NA AMAZÔNIA ORIENTAL
Descrição
A tripanossomíase americana, também conhecida como doença de Chagas causada pelo agente etiológico Trypanosoma cruzi (Kinetoplastidae: Trypanosomatidae) transmitida ao ser humano por triatomíneos “barbeiros”, insetos hemípteros da família Reduviidae (NEVES, 2011). Foi descrita por Carlos Chagas no início do século passado. Historicamente, a principal forma de transmissão da doença nas Américas é a que ocorre através da picada do barbeiro e posterior eliminação das fezes sobre a pele do indivíduo, que penetra o tecido cutâneo. Outras formas de transmissão também são conhecidas, tais como a congênita, por transfusão sanguínea, alimentar (Gurgel-Gonçalves, 2011). No Brasil as regiões sudeste e nordeste contribuíram para a maior incidência dos casos da doença de chagas por décadas (Gurgel-Gonçalves et al, 2008). Classificada como uma doença negligenciada, a sua distribuição e sua prevalência estão relacionadas a diversos fatores, tais como culturais, sociais, ambientais. Durante décadas, as estratégias de controle foram intensificadas para a eliminação do Triatoma infestans, principal vetor da DC no Brasil naquele período (Dias 2007). As palmeiras nativas do estuário amazônico constituem importantes ecótopos naturais para diversas espécies de triatomíneos. Neste contexto, a pesquisa será direcionada à investigação dos triatomíneos em diferentes áreas que possam servir de refúgio para esses insetos com ênfase nas palmeiras nativas, a fim de ampliar o conhecimento sobre a ocorrência desses vetores e sua importância epidemiológica na transmissão da doença de Chagas. Os registros dos casos, geralmente estão associados a transmissão oral, especialmente pelo consumo de açaí contaminado com o protozoário Trypanosoma cruzi, agente etiológico da doença. Entretanto, evidências científicas destacam que a fauna desses vetores pode ser muito mais ampla, contemplando diversos ecótopos naturais que precisam ser investigados, para preencher lacunas de conhecimentos e ampliar o entendimento a cerca da transmissão da doença. Dessa forma, a investigação consistirá na realização de busca ativa em parcelas previamente estabelecidas contendo palmeiras nativas do estuário amazônico. As coletas serão realizadas por inspeção direta nas palmeiras, possibilitando a avaliação da distribuição desses vetores nas diferentes áreas de estudo. Concomitantemente, a vigilância passiva dos vetores, será implantada nas comunidades ribeirinhas, por meio das ações de educação em saúde desenvolvidas durante as expedições científicas. Essa estratégia visa capacitar os moradores para o reconhecimento, coleta, acondicionamento e encaminhamento adequado dos triatomíneos ao Instituto de Pesquisas e Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá/ IEPA ou a Universidade Federal do Amapá/ UNIFAP, além de promover orientações sobre as Boas Práticas de Fabricação (BPF) aplicadas ao processamento dos frutos da sociobiodiversidade, especialmente o açaí. O método de atração por fonte luminosa será utilizado para verificar a presença dos vetores nas proximidades das comunidades estudadas. Todos os espécimes coletados serão submetidos a identificação taxonômica, análise parasitológica para detecção de tripanosomatídeos e análise molecular para detecção de T. cruzi e posteriormente, incorporados à Coleção Científica Entomofauna do Amapá contribuindo para o conhecimento da diversidade e distribuição desses vetores na Amazônia. Entre as principais limitações do estudo destaca-se o escasso conhecimento das comunidades tradicionais sobre os triatomíneos e sua importância na transmissão da doença de Chagas, o que pode comprometer a identificação e a notificação desses insetos. Soma-se a ocorrência de espécies ainda desconhecidas, reflexo da escassez de estudos entomológicos em diversas regiões do estuário amazônico. Além disso, existem poucas ferramentas efetivas para rápida identificação em campo, para registros novos, requerendo assim a transferência do material coletado para os laboratórios de pesquisas. Nesse contexto, há necessidade de se estabelecer e/ou fortalecer uma relação sólida entre a comunidade científica e as comunidades tradicionais, no treinamento continuado de comunitários para o monitoramento, coleta e destinação adequada dos insetos, contribuindo assim com a pesquisa de modo geral. O objetivo deste estudo é identificar a ocorrência de triatomíneos nas diferentes áreas do estuário amazônico apontando áreas de risco para doença de Chagas, com base nos registros das principais espécies encontradas. O estudo será realizado em áreas de floresta de várzea localizadas ao longo do canal norte da foz do rio Amazonas, abrangendo comunidades ribeirinhas situadas em dois estados da Amazônia brasileira: Amapá e Pará. No estado do Amapá, serão selecionadas comunidades da Ilha de Santana no município de Santana, Foz do Mazagão e Furo do Maracá, ambas localizadas no município de Mazagão. Enquanto, no estado do Pará, serão selecionadas as comunidades do Rio Serraria Pequena e Rio Maniva, situadas no município de Afuá, além da comunidade de Ilha das Cinzas, pertencente ao município de Gurupá. Essas localidades caracterizam-se por ecossistemas típicos de várzea amazônica e por intensa interação entre as populações ribeirinhas e os recursos naturais da região. As técnicas de captura de triatomíneos podem ser classificadas em duas modalidades operacionais distintas: busca ativa e busca passiva, a depender do modelo de monitoramento entomológico adotado para cada área de estudo. No presente estudo, serão empregadas estratégias de busca ativa nos ambientes intradomiciliar, peridomiciliar e silvestre, visando a detecção de possíveis ecótopos de triatomíneos. No ambiente silvestre, além da inspeção direta, serão instaladas armadilhas luminosas (Shannon e pano branco) para a captura de espécimes atraídos pela fonte luminosa durante o período noturno. Entretanto, a principal via de obtenção dos insetos ocorreu por meio da vigilância passiva, a partir do encaminhamento de exemplares coletados pelos próprios moradores das comunidades participantes da pesquisa. Em parceria com o Laboratório de Entomologia Médica do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá/IEPA será realizada a triagem do material e a montagem em alfinetes entomológicos, de exemplares de cada espécie. O material testemunha será depositado na coleção entomológica fiel depositária do estado do Amapá, localizada no IEPA. A identificação será realizada por meio de características fenotípicas baseando-se na morfologia externa e na chave de identificação dicotômica de Galvão & Oliveira 2025 e com auxílio de especialistas. Para a realização da análise de infectividade, o abdômen será cuidadosamente aberto com o auxílio de bisturi e pinça entomológica. Em seguida, o conteúdo intestinal será coletado de forma asséptica, acondicionado em solução fisiológica estéril e armazenado a −20 °C até as análises moleculares. Além das análises de infectividade através da PCR também serão analisados o conteúdo intestinal por meio da compressão abdominal de acordo com Junqueira et al. 2009 dos triatomíneos retirado para pesquisa por T. cruzi e observado a fresco entre lâmina e lamínula ao microscópio óptico, em parceria com o IEPA. Os dados serão tabulados em planilhas do Microsoft Excel, servindo de base para a análise estatística descritiva.
Candidatar-se
Entre na sua conta para enviar uma carta de intenção à coordenação deste projeto.