Projeto de pesquisa, UFPB
DA PALAVRA QUE VINGA: A POESIA BRASILEIRA DE AUTORIA FEMININA HOJE
Descrição
Nesta proposta, vinculada à subárea de literatura brasileira, nós nos voltamos para a poesia contemporânea feita por mulheres no Brasil, particularmente aquela comprometida com a desestabilização das políticas de morte estruturadas no âmbito do Estado. Ela surge, assim, do interesse de compreender o que vem se delineando, nessa poesia, como um projeto que vinga e faz vingar corpos considerados matáveis na dinâmica da colonialidade. E, quando afirmamos que essa poesia vinga, falamos no sentido de encarnar uma luta por reparação e justiça, mas também no de fazer crescer, de manter viva a memória; no sentido de “vingar os frutos não vingados” (Magalhães, 2021a, p. 194) e “honrar as mortas e os mortos, [...] para haver países depois de tiranos, [...] para driblar a fonte inesgotável de horror dos perversos” (Pequeno, 2021). Ao mencionar as poetas Danielle Magalhães e Tatiana Pequeno, e, a partir delas, os sentidos de vingar que aqui assumimos, é importante dizer que a propulsão para desenvolver esta pesquisa surgiu de um livro de poemas da primeira, o Vingar (2021), incluindo o texto da sua orelha, escrito pela segunda. Elucidando o título-verbete, Danielle lembra que: “Vingar é da vingança, mas não apenas: aquela que vingou, que vinga, é a semente que deu certo, cuja voz se lança no espaço e no tempo, que nos fala, que grita no silêncio da escrita” (Magalhães 2021a, p. 194). Essa semente, lançada nos poemas que integram a obra, no texto de Tatiana Pequeno e por nós cultivada como interesse de estudo, ajudou a melhor compreender o que vínhamos especulando ao acompanhar a poesia contemporânea. Além do livro, tem papel importante o que tomamos, junto a pesquisadoras como Carla Rodrigues (2021), como um paradigma de luta política feminista dos últimos anos, marcado pela (ins)urgência própria dos movimentos contra-hegemônicos, como os feminismos: a realização do luto público em torno de Marielle Franco, no qual a poesia de autoria feminina teve participação efetiva, com a circulação, de imediato, nas redes sociais, de poemas em homenagem à vereadora, posteriormente publicados em coletâneas e em obras individuais. É por essa razão que delimitamos, enquanto recorte de análise, obras publicadas a partir de 2018 e que conferem, em seu corpo semântico, o estatuto de amáveis a vidas consideradas matáveis (Magalhães, 2022). A fim de abordá-las, lançamos as seguintes questões de pesquisa: 1) Tendo em vista que a desestabilização poética e política começa pela e na língua, quais estratégias linguísticas são utilizadas? 2) Partindo do pressuposto de que a poesia assume um papel importante nesse projeto político mais amplo de reivindicação política pelas vidas concebidas como matáveis, qual seria esse papel? 3) Além do papel nesse projeto amplo, o reconhecimento e as recorrências temáticas e textuais podem ser compreendidos como um projeto estético/literário no cenário da poesia contemporânea, ainda muito lida a partir do paradigma da diversidade, que, de tão repetido, foi esvaziado de sentidos? Se sim, que projeto é esse? A hipótese que desafiamos como resposta a essas questões é a de que há, na poesia de autoria feminina, sobretudo na poesia negra-feminina e na indígena, um projeto literário forjado no esforço de vingar e fazer vingar as vidas não reconhecidas como vidas por parte do Estado e, portanto, não enlutáveis. E, na maior parte dos casos, vingar e fazer vingar, em um gesto de reivindicação, reconhecimento e reparação, as vidas que são alvo da colonialidade é vingar e fazer vingar a própria vida, por saber-se não enlutável. Para tanto, essa poesia investe, no corpo do poema, em gestos de rasura, acolhimento e reconhecimento, indissociáveis; rasura-se o texto, às vezes o próprio texto, a língua, a narrativa oficial, para acolher as contra narrativas; para acolher, a partir de marcações geopolíticas e de gênero, classe, raça, sexualidade, entre outras, um rosto, um nome, um corpo, considerados, pelo Estado, estatística. Inscreve-se e escreve-se no corpo do poema, ao mesmo tempo, a certidão e o obituário negados. Em termos teóricos, partimos de um corpus conceitual que compreende o projeto dessa poesia como um projeto feminista decolonial, comprometido com um “esforço de desengajamento epistemológico” (Curiel, 2020, p.135), que propõe “novas categorias não ocidentais ou elaboram, a partir de categorias ocidentais, novos conceitos não hegemônicos que expandam as possibilidades de interpretação sobre as “outras”” (Curiel, 2020, p. 135). Nesse sentido, consideramos, sobretudo, epistemologias latino-americanas, especialmente aquelas formuladas a partir da realidade brasileira, que nos ajudam a pensar os poemas em sua expressão e atuação contra a grande narrativa universal da modernidade colonial (Quijano, 2010). No que diz respeito aos estudos sobre a poesia brasileira contemporânea, convocamos, principalmente, aqueles que têm como objeto a poesia de mulheres, a exemplo do de Heleine Fernandes Souza (2020), sobre o exercício, em poéticas negra-femininas, da descolonização do pensamento, e o de Danielle Magalhães (2022), poeta e pesquisadora anteriormente citada, que investiga o duplo gesto do verso que aponta para o amor e para o horror, conferindo o estatuto de amáveis aos que são matáveis. Por fim, ainda nos valemos das reflexões de Ana Kiffer e Gabriel Giorgi (2019) sobre as lutas, gestos e escritas característicos dos regimes de afecções do presente para pensar os gestos de rasura, acolhimento e reconhecimento que constituem a pele performativa da poesia em questão.
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