Projeto de pesquisa, UFPB
REVISÕES SISTEMÁTICAS EM NEUROCIRURGIA: SEGURANÇA E EFICÁCIA NOS MELHORES NÍVEIS DE EVIDÊNCIA
Descrição
A prática clínica contemporânea fundamenta-se na síntese crítica das melhores evidências disponíveis, e as revisões sistemáticas com meta-análise ocupam o topo dessa hierarquia. Diferentemente das revisões narrativas, caracterizam-se pela adoção de metodologia explícita, transparente e reprodutível, o que confere menor susceptibilidade a vieses e maior confiabilidade nas estimativas produzidas (DJULBEGOVIC; GUYATT, 2017; DONATO; DONATO, 2019). No campo das neurociências, onde o volume crescente de publicações impõe desafios progressivos à atualização profissional, esse tipo de estudo é instrumento indispensável para a síntese e aplicação do conhecimento científico na prática (MUNN et al., 2018). Nesse cenário, a hidrocefalia de pressão normal idiopática (HPNi) representa um problema de saúde pública de relevância crescente. Trata-se de síndrome neurológica que afeta predominantemente adultos acima dos 60 anos, com prevalência estimada em 3,7% nessa faixa etária e progressão para aproximadamente 8,9% após os 80 anos (JARAJ et al., 2014). A cirurgia de derivação do líquido cerebrospinal (LCR) — por derivação ventriculoperitoneal ou lomboperioneal — constitui o único tratamento eficaz para a condição, com taxas de melhora global superiores a 74% (SALIH et al., 2024) e eficácia confirmada pelo ensaio clínico randomizado controlado por placebo PENS, publicado no New England Journal of Medicine em 2025. Apesar do perfil de eficácia bem estabelecido, o perfil de segurança neurológica dessa intervenção nunca foi investigado como desfecho primário em revisão sistemática. Os eventos adversos neurológicos são reportados, quando mencionados, apenas como componentes de listas compostas de complicações gerais, sem granularidade por tipo de evento, modalidade cirúrgica ou período de seguimento. Evidências recentes identificaram sinais consistentes e preocupantes: taxa de AVC isquêmico de 8% em 12 meses (Cochrane, 2024), infarto cerebral em 6,9% dos operados no ensaio SINPHONI-2 (MIYAJIMA et al., 2015) e hematoma subdural sintomático em 12% do grupo de shunt ativo no ensaio PENS (PENS TRIAL, 2025). Nenhuma meta-análise, contudo, agrupou esses dados como desfechos primários. Diante dessa lacuna, o presente projeto tem como objetivo produzir uma revisão sistemática com meta-análise que quantifique, de forma inédita, a incidência de complicações neurológicas sérias após cirurgia de shunt na HPNi. A condução do estudo seguirá as diretrizes PRISMA (GALVÃO; PANSANI; HARRAD, 2015), com protocolo previamente registrado no PROSPERO (CRD420261408854), assegurando transparência metodológica e originalidade. O processo será organizado nas seguintes etapas: 1) Formulação da pergunta norteadora segundo a estratégia PICO; 2) Busca sistemática nas bases CENTRAL, Embase e PubMed; 3) Extração dos dados e avaliação do risco de viés (RoB-2 e ROBINS-I); 4) Síntese por meta-análise de proporções com modelo de efeitos aleatórios e avaliação da certeza das evidências pelo sistema GRADE. Espera-se que os resultados forneçam a primeira quantificação sistemática das complicações neurológicas pós-shunt na HPNi, subsidiando a tomada de decisão cirúrgica individualizada, o aconselhamento pré-operatório de pacientes idosos com alto risco cerebrovascular e o estabelecimento de parâmetros de segurança robustos para futuros ensaios clínicos.
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