Projeto de pesquisa, UFPB
Medicina e conservação de aves silvestres na Paraíba
Descrição
O Brasil é o segundo país do mundo com a maior biodiversidade de espécies aviárias, representando mais de 50% de todas as espécies de aves registradas na América do Sul (ALVES et al., 2013). São registradas mais de 1.919 espécies de aves, destas 234 incorporam a lista de espécies brasileiras ameaçadas de extinção e 166 estão ameaçadas globalmente, liderando assim, o ranking de país com mais espécies ameaçadas de extinção nas Américas. Entre os animais resgatados do tráfico, as aves correspondem ao maior número de espécies que entram em centros de triagem de animais silvestres (CETAS) anualmente. Só na Paraíba correspondem a mais de 80% dos animais depositados no CETAS (PAGANO et al, 2009). Afim de desenvolver estratégias para ampliar o conhecimento e ações de proteção para fauna, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), por meio da execução de planos de ação nacional (PAN), define algumas medidas de importância como: Reduzir a perda de habitats; Reduzir a caça, a captura ilegal e o tráfico; Promover o manejo adequado de solturas nas áreas de ocorrência; Promover o manejo in situ e/ou ex situ das espécies com vistas à reintrodução e/ou revigoramento populacional (ICMBIO, 2018). Os Passeriformes podem ser divididos em duas subordens, os suboscines e os oscines, este último com aproximadamente 4.500 espécies, sendo considerado o grupo mais desenvolvido, devido a exclusividade de características particulares, como a forma do bico, estrutura e complexidade da siringe, variação dos ossos do crânio e anatomia do ouvido interno (SICK, 1997; SILVERA, 1999). A complexidade do canto e a beleza exuberante desses espécimes, fez com que sofressem intensamente com o tráfico e a criação clandestina, tornando-se uma prática bem comum e considerada cultural no Brasil. Por muito tempo a fauna tão interessante brasileira foi tratada como um produto e devido ao mercado ilegal vários espécimes, não ameaçadas e ameaçadas e de extinção, como o pintor-verdadeiro (Tangara fastuosa) e o pintassilgo-do-nordeste (Spinus yarrellii), foram e ainda são retirados do habitat natural para cobrir a demanda por esses animais (SICK, 1997; BirdLife Internacional, 2016a;2018b). Atualmente no Brasil, sob regulamentação e fiscalização dos órgãos ambientais, diversas espécies de passeriformes podem ser legalmente mantidas sob cuidados humanos (ex situ), com cerca de 2 milhões de passeriformes silvestres sendo criados de forma legalizada, controlada por um sistema informatizado criado pelo IBAMA, o SISPASS (Sistema de Cadastro de Criadores Amadoristas de Passeriformes) (COSTA & MONTEIRO, 2016). Entretanto, um número maior de animais não legalizados é comercializado e apreendidos pelos órgãos ambientais competentes. Nesse contexto o monitoramento continuo da população cativa, reprodutores e a intensificação das fiscalizações em criadouros e amadores legalizados, é um papel realizado pelo IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), de grande importância a conservação, nessas populações sob cuidados humanos, pois estas representam um importante reservatório biológico que pode ser utilizado como ferramentas de ações protocolados de translocações conservacionistas (MACHADO et al. 2020). Segundo Menezes & Fontgalland (2022), o valor gerado em 2021 por multas contra criadores ilegais de animais silvestres correspondeu a R$ 1.328.000, sendo 33% do total nesse ano resultante da prática de infrações administrativas ambientais. Destaca-se a necessidade de uma visão mais conservacionista no programa de apreensão/destinação de animais oriundos do tráfico e criação ilegal, abordando uma conservação integrada, onde haja preocupação com a espécie-alvo, as comunidades do ambiente natural e/ou o ecossistema no geral (EFEL, 2006). Afim de reduzir o impacto das perdas de espécies em habitas naturais, algumas metodologias são utilizadas atualmente, como por exemplo: as translocações conservacionistas, ou seja, ações humanas de reintroduções e liberações para reforço populacional de espécies dentro de sua área de ocorrência histórica, a colonização assistida e a substituição ecológica (IUCN, 2013). Em projetos de reintrodução alguns fatores podem ser indicadores de sucesso e eficácia do programa, como: número de indivíduos sobreviventes na natureza um ano após a soltura; observação de adaptação ao alimento nativo e comportamento compatível com os das populações naturais, reconhecer predadores naturais e outras ameaças; número de indivíduos dispersos, estabelecidos e defendendo territórios; eventos reprodutivos; subsídios para o conhecimento da biologia e ecologia das espécies (IBAMA, 2014; SOMENZARI et al., 2021). Estudos envolvendo a análise da viabilidade populacional a longo prazo de populações reintroduzidas de Sporophila maximiliani, indicam que a liberação de um pequeno grupo de indivíduos seguida de adição anual de alguns outros indivíduos é uma estratégia válida para o estabelecimento de populações iniciais, esta suplementação interferiu de modo considerável na variabilidade genética (MACHADO, et al. 2020). Dentre as maiores dificuldades enfrentadas pelos centros de triagem de animais silvestres (CETAS), atualmente, a falta de protocolos para a devolução dos espécimes à natureza, fundamentados em pesquisas científicas, talvez seja a que representa maior urgência a ser sanada (CAVALCANTI, 2011). Quando os animais são comercializados ilegalmente, não passam por nenhum controle sanitário, podendo transmitir doenças graves, inclusive desconhecidas, para as criações domésticas, populações de vida livre e para o ser humano, acarretando sérias consequências sanitárias (RENCTAS, 2001). Diversos estudos abordam a importância do manejo sanitário de indivíduos que irão retornar ao ambiente natural, apontando-os como possíveis carreadores de organismos patogênicos, sendo observado elevado percentual de infecções bacterianas, assim como alta taxa de resistência aos antimicrobianos testados, além da detecção de genes de virulência de relevância para a saúde pública (GAIO et al., 2019). Análises de passeriformes silvestres oriundos do comércio ilegal que passaram por exames necroscópicos, demonstram que a maioria das aves se encontrava em mau estado geral, tendo como principais causas as doenças infecciosas e parasitárias, além disso, destacam-se distúrbios metabólico/nutricionais (GODOY & MATUSHIMA, 2010; ECHENIQUE et al., 2020). Barreto et al. (2019) recomendam o monitoramento constante de passeriformes durante o processo de reabilitação, e descrevem novos hospedeiros e espécies de coccídeos, onde a família Thraupidae é uma das mais acometidas. Em um estudo realizado no Laboratório de Microscopia Eletrônica do CRAS do Parque ecológico do Tietê, identificou-se a presença de partículas virais de paramixovírus em amostras de 35 indivíduos de Sporophila angolensis oriundos do comércio ilegal, utilizando-se a técnica de microscopia eletrônica de transmissão através de fragmentos de intestino coletados durante as necropsias dos animais (CATROXO et al., 2022). Além disso, alguns estudos demonstram a importância de protocolos nutricionais, pois passeriformes silvestres que chegam aos centros de triagem e reabilitação geralmente são acometidos por um manejo nutricional inadequado, comprometendo a condição corporal e predisposição a infecções, sendo causa importante de mortalidade desses animais (FIRMINO et al., 2013; DE CARVALHO RODRIGUES et al., 2019). Passeriformes apreendidos e encaminhados ao Departamento de Parques e Áreas Verdes de São Paulo - Divisão de Medicina Veterinária (DEPAVE) apresentaram crescimento de microrganismos em amostras de swab cloacal na maioria dos indivíduos, no qual foram isolados quinze gêneros de bactérias e quatro gêneros de fungos filamentosos, sendo detectada multirresistência em Staphylococcus spp., Micrococcus spp., Escherichia sp., Klebsiella spp. isolados (BRACONARO, 2012). Diante dos fatos abordados, evidencia-se a importância de pesquisas envolvendo o aspecto sanitário do manejo e reabilitação de passeriformes silvestres oriundos do tráfico ilegal de animais silvestres, visto que, tais espécimes requerem protocolos elaborados e adequados para que possam retornar de forma eficiente e causando pouco impacto ao habitat natural, além disso, esses animais são frequentemente acometidos por patologias infecciosas, parasitárias e nutricionais durante sua estadia em centros de triagem e reabilitações, logo, faz-se necessário o estabelecimento de protocolos sanitários, nutricionais e comportamentais, fornecendo subsídios para diminuir as taxas de mortalidade e aumentando a eficácia de programas de reintrodução e revigoramento populacional.Com este trabalho objetiva-se investigar quais as principais causas de morbidade e mortalidade em aves silvestres e mantidas como pet que são atendidas no Hospital Veterinário da UFPB ou que são encaminhadas para o Laboratório de Medicina da Conservação da UFPB, com o intuito de contribuir para o manejo sanitário de projetos de conservação de aves
Candidatar-se
Entre na sua conta para enviar uma carta de intenção à coordenação deste projeto.