Projeto de pesquisa, UFPB
Investigação do mecanismo preventivo da Arthrospira platensis frente as alterações nas defesas antioxidantes em útero de ratas Wistar em um modelo experimental de dismenorreia primária
Descrição
A dismenorreia é uma das principais desordens ginecológicas que afetam mulheres em idade fértil, impactando diretamente as atividades diárias, sendo classificada em primária (DisP), quando não associada a doenças pélvicas subjacentes, ou secundária, que se associa a alguma doença prévia, como endometriose, adenomiose, cistos ovarianos ou ainda complicações de dispositivos intrauterinos (Burnett, 2025; Itani et al., 2022). Estima-se que a prevalência dessa condição varie de 45 a 95% entre mulheres afetadas, tanto globalmente quanto no Brasil, com aproximadamente 69% apresentando manifestações clínicas de moderadas a graves (Barbosa-Silva et al., 2024). Desde 2006, a DisP é configurada como um problema de Saúde Pública segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) (Latthe et al., 2006), no entanto, apesar desta alta prevalência entre as mulheres, acarretando absenteísmo escolar e diminuição da produtividade em jovens, ainda é subnotificada e subtratada (Panova; Boshku; Stankovic, 2026). De maneira geral, a dor descrita na DisP localiza-se predominantemente na região pélvica, podendo irradiar para a região lombossacral e para a parte superior das coxas (Greco et al., 2026; Barcikowska et al., 2020). Além disso, outros sintomas são descritos, incluindo sudorese, cefaleia, tremores, diarreia, fraqueza e irritabilidade (Ferries-Rowe; Corey; Archer, 2020). Sua patogênese é desencadeada principalmente devido a queda dos níveis de progesterona antes da menstruação, que acarreta em hipercontratilidade do miométrio (Ferries-Rowe; Corey; Archer, 2020). Essa alteração hormonal promove o aumento da síntese de prostaglandinas, especialmente a prostaglandina F2α (PGF2α), intensificando as contrações uterinas e desenvolvendo um processo inflamatório caracterizado pela elevação de citocinas pró-inflamatórias (Barcikowska et al., 2020; McKenna; Fogleman, 2021; Yang et al., 2023). Adicionalmente, a isquemia decorrente da hipercontratilidade uterina promove a geração de espécies reativas, incluindo o peróxido de hidrogênio (H2O2), o ânion superóxido (O2•⁻) e o óxido nítrico (NO). A exacerbação dessas espécies no ambiente inflamatório está associada ao aumento da contratilidade da musculatura lisa uterina, contribuindo para a fisiopatologia (Andrabi et al., 2023; Aksoy et al., 2017; Laleli; Timur, 2022). Nesse sentido, verifica-se na DisP uma ruptura da homeostase redox, caracterizada pelo desequilíbrio entre a produção de espécies reativas de oxigênio (ROS) e a capacidade antioxidante do organismo. Entre os principais componentes do sistema de defesa antioxidante, destacam-se a superóxido dismutase (SOD), a glutationa peroxidase (GPx), grupos sulfidrila não proteicos (GSH) e a catalase, que são responsáveis pela neutralização das ROS e pela proteção celular contra danos oxidativos. Quando a produção dessas espécies excede a capacidade de eliminação pelo sistema antioxidante, estabelece-se um estado de desbalanço do estresse oxidativo, condição fortemente associada à patogênese da DisP (Kaplan et al., 2013; Jomova et al., 2024). O manejo farmacológico desta disfunção tem como principais opções terapêuticas os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), como ibuprofeno e ácido mefenâmico, que reduzem a síntese de prostaglandinas; os contraceptivos hormonais, cuja ação está relacionada à supressão da ovulação e os antiespasmódicos, como a butilescopolamina, que reduzem as contrações uterinas (Itani et al., 2022; Ferries-Rowe; Corey; Archer, 2020; Sabec; Golob; Kozinc, 2024). Apesar de amplamente utilizados, esses tratamentos apresentam limitações importantes, uma vez que parte das pacientes não obtém alívio satisfatório dos sintomas. Além disso, a ocorrência de efeitos colaterais, como distúrbios gastrointestinais, sangramentos e alterações na pressão arterial, que podem comprometer a adesão ao tratamento e desencorajar seu uso (Ferries-Rowe; Corey; Archer, 2020; Itani et al., 2022). Diante desse cenário, novas alternativas terapêuticas vêm sendo investigadas. Entre elas, destaca-se a utilização da Arthrospira platensis, anteriormente denominada Spirulina platensis, uma cianobactéria verde-azulada reconhecida como novo alimento no Brasil (Brasil, 2013) e classificada como suplemento alimentar pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) (Brasil, 2017). Estudos têm demonstrado que essa cianobactéria apresenta diversas propriedades farmacológicas, incluindo atividades antioxidante (Hirata et al., 2000), anti-inflamatória (Deng; Chow, 2010) e antinociceptiva (Santos et al., 2020). Estes efeitos são atribuídos a vasta composição da espécie, que inclui compostos fenólicos, flavonoides e ficocianinas (Kelebek; Uzlasir; Sasmaz, 2025). Com base nessas premissas, nosso grupo de pesquisa identificou que a suplementação com A. platensis em pó exerce efeito modulador sobre a reatividade contrátil e relaxante da musculatura lisa em diferentes tecidos, tais como íleo (Diniz et al., 2023; Diniz et al., 2024), aorta (Brito, 2014; Brito et al., 2018), traqueia (Oliveira, 2024), corpo cavernoso (Souza et al., 2022) e útero (Barros et al., 2025; Ferreira et al., 2021). Além disso, em modelo experimental de DisP, padronizado em nosso laboratório por Lacerda-Júnior (2022), foi demonstrado que a suplementação com A. platensis, na dose de 100 mg.kg-1, preveniu completamente o aumento do número de contorções abdominais e o desenvolvimento de alterações morfológicas no endométrio e no miométrio. A suplementação impediu o aumento da reatividade contrátil induzida por KCl e ocitocina, bem como preveniu a redução da reatividade relaxante ao nifedipino e à isoprenalina. Em continuidade aos estudos de Lacerda-Júnior (2022), foi proposto como mecanismos de ação preventivos desta suplementação, Soares (2025) e Melchiades (2024) demonstraram que a prevenção do aumento da reatividade contrátil induzida por KCl e ocitocina, respectivamente, parece estar relacionada à modulação negativa das vias dos prostanoides, da NADPH oxidase e modulação positiva da SOD. Partindo disso, ressalta-se que em estudos bioquímicos preliminares a Arthrospira platensis previne o aumento do estresse oxidativo em útero e ovários, através da prevenção do aumento da peroxidação lipídica e da capacidade antioxidante total (CAT) (Lacerda-Júnior, 2022). Nesse contexto, considerando as propriedades antioxidantes relatadas para a A. platensis na modulação do desbalanço do estresse oxidativo, este projeto tem como objetivo realizar a investigação bioquímica do papel das defesas antioxidantes na explicação dos efeitos preventivos dessa cianobactéria em modelo experimental de dismenorreia primária em ratas.
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