Projeto de pesquisa, UFPB
SAÚDE MENTAL DE PESSOAS IDOSAS E PERCEPÇÃO AMBIENTAL EM DIFERENTES CONTEXTOS SOCIAIS
Descrição
Nas últimas décadas, o mundo tem vivenciado um acelerado processo de transição demográfica, marcado pelo aumento da expectativa de vida e pelo crescimento da população idosa. As projeções indicam que essa tendência continuará nas próximas décadas, impondo novos desafios sociais, econômicos e sanitários para os países em diferentes níveis de desenvolvimento (PARTRIDGE, 2018) No Brasil, esse processo ocorre concomitantemente a uma transição epidemiológica complexa, caracterizada pela coexistência de doenças crônicas não transmissíveis, doenças infecciosas ainda não totalmente controladas e agravos decorrentes de causas externas. Esse cenário denominado triplo carga de doença, demanda resposta cada vez mais abrangentes dos sistemas de saúde (MENDES, 2019) A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece que os processos de saúde e adoecimento são fortemente influenciados pelos determinantes sociais de saúde, (OMS, 2011) A relevância dessa discussão torna-se ainda mais evidente diante do envelhecimento populacional. Em resposta a esse cenário , a Organização Panamericana de Saúde (OPAS) lançou a década do envelhecimento saudável (2021-2030), iniciativa que reforça a necessidade de construção de sociedades capazes de promover oportunidades para que as pessoas envelheçam com saúde, autonomia e participação social, Entre suas principais áreas de ação destacam-se a valorização da pessoa idosa , o fortalecimento da capacidade funcional, cognitiva e social, a oferta de cuidados integrados e centrados na pessoa idosa e a ampliação do acesso aos cuidados de longa duração, quando necessário (OPAS, 2020). Alinhada a essa perspectiva, a Organização Mundial de Saúde define o envelhecimento saudável como o processo de desenvolvimento e manutenção da capacidade. Essa concepção amplia a compreensão do envelhecimento além da ausência da doença, incorporando aspectos relacionados à funcionalidade, à participação social, a autonomia e as condições ambientais que favorecem a qualidade de vida das pessoas idosas. (OMS, 2020) Sob essa perspectiva os Determinantes Sociais da Saúde assumem papel central na compreensão das desigualdades observadas no envelhecimento. Fatores relacionados às condições de moradia, renda, acesso aos serviços de saúde, suporte social e oportunidade de participação comunitária influenciam diretamente as experiencias de envelhecer e os desfechos em saúde. Evidências demonstram que contextos marcados por vulnerabilidade social podem contribuir para o agravamento das condições de saúde dificultar o acesso ao cuidado contínuo, como revela o estudo de Zanchi de Mattos et al (2021) onde pessoas idosas expostas a condições de vulnerabilidade relatam pior percepção da saúde, maior dificuldade de acesso aos serviços e limitações na continuidade do cuidado, demonstrando a influência do contexto social sobre as condições de vida e saúde da população. Zanchi de Mattos et al, (2021) Além das condições materiais e sociais de vida, a saúde mental constitui um dos componentes essenciais do envelhecimento saudável. Sua relevância transcende a ausência de transtornos mentais, abrangendo aspectos relacionados ao bem-estar, à autonomia, à participação social e à capacidade de enfrentar os desafios cotidianos. Nesse sentido, a saúde mental também expressa as desigualdades sociais existentes, refletindo as condições de vida e as oportunidades de acesso ao cuidado. Por essa razão, sua incorporação às práticas de atenção à saúde tem sido amplamente discutida no âmbito da Saúde Mental Global, especialmente pela necessidade de ampliar o acesso, promover direitos humanos e garantir respostas efetivas às demandas da população (WENCESLAU & ORTEGA, 2018). Entre as pessoas idosas, diversos fatores podem influenciar negativamente a saúde mental. Estudos brasileiros evidenciam que a presença de múltiplas morbidades, associada ao aumento da dependência funcional, pode resultar em menor participação nas atividades de vida diária e em maior vulnerabilidade à fragilidade e aos sintomas depressivos. Tavares et al. (2021) e Amaral et al. (2018). Esses achados reforçam que o comprometimento das capacidades funcionais está diretamente relacionado ao bem-estar psicológico e à qualidade de vida na velhice. Corroborando essa perspectiva, pesquisas recentes apontam que pessoas idosas dependentes constituem um grupo particularmente vulnerável a desfechos desfavoráveis em saúde mental. A necessidade de cuidados contínuos, as limitações funcionais e as restrições à participação social podem contribuir para o agravamento do sofrimento psíquico, tornando indispensável a adoção de estratégias que promovam suporte social, autonomia e qualidade do cuidado ao longo do processo de envelhecimento. As desigualdades observadas na saúde mental da população idosa também estão relacionadas às oportunidades de acesso aos serviços de saúde. Evidências indicam que pessoas idosas com comprometimento cognitivo, limitações funcionais ou condições crônicas enfrentam maiores barreiras para acessar e utilizar os serviços de forma contínua e integral. Além disso, a dependência de cuidadores, o baixo letramento em saúde e as dificuldades de mobilidade podem favorecer a fragmentação do cuidado e aumentar o risco de desfechos negativos em saúde Oliveira-Figueiredo et al. (2025); Rahemi et al. (2024). Para além das condições clínicas e do acesso aos serviços, a literatura tem demonstrado que as relações sociais desempenham papel fundamental na manutenção da saúde e do bem-estar durante o envelhecimento. Estudos apontam que pessoas idosas estão entre os grupos mais suscetíveis à solidão e ao isolamento social, especialmente quando expostas a condições de vulnerabilidade econômica, exclusão social ou redução das redes de apoio. Nessas circunstâncias, sentimentos de abandono, insegurança e invisibilidade social podem repercutir negativamente na qualidade de vida e na saúde mental (SPITZER, 2022). De forma complementar, evidências internacionais demonstram que o isolamento social e a solidão estão associados ao aumento do risco de mortalidade precoce, doenças cardiovasculares, diabetes, depressão, ansiedade, declínio cognitivo e perda funcional. Por outro lado, a conexão social tem sido reconhecida como um importante fator protetor da saúde, produzindo benefícios comparáveis ou até superiores àqueles observados em intervenções voltadas para fatores clássicos de risco em saúde pública, como sedentarismo e obesidade (HOLT-LUNSTAD, 2022). Esses resultados ampliam a compreensão da saúde para além do modelo biomédico tradicional, destacando a relevância dos vínculos sociais e comunitários na produção do bem-estar e na prevenção do adoecimento. Nesse contexto, a participação social emerge como importante estratégia para promoção da saúde e fortalecimento das capacidades individuais. A inserção de pessoas idosas em espaços educativos, culturais e comunitários favorece novas aprendizagens, estimula o funcionamento cognitivo, fortalece relações interpessoais e amplia as oportunidades de exercício dos papéis sociais. Além disso, esses espaços promovem interações intra e intergeracionais capazes de impactar positivamente o bem-estar e a qualidade de vida na velhice (FOSTER & WALKER, 2019). A Gerontologia Ambiental é o campo multidisciplinar dedicado a descrever, explicar e otimizar a relação entre a pessoa idosa e seu entorno socio físico. Este campo define o ambiente não apenas por seus atributos físicos e objetivos, mas por sua interpretação social e pelos significados compartilhados que influenciam o comportamento e a adaptação do idoso. (SCHWARZ, 2022) Embora a participação social e os vínculos comunitários sejam reconhecidos como fatores protetivos para a saúde mental, tais experiências não ocorrem de forma dissociada do ambiente em que a pessoa idosa está inserida. Nesse sentido, compreender a interação entre indivíduo e ambiente torna-se fundamental para explicar os diferentes desfechos observados no processo de envelhecimento. (LAWTON, 1973), descreveu as três funções básicas dos ambientes socio físicos para o funcionamento competente e qualidade de vida na velhice, a saber: suas funções de manutenção, de estimulação e de suporte. A função de manutenção destaca a importância da constância e previsibilidade do ambiente, que contribuem para que o indivíduo atribua significados e derive experiências de lar, lugar, identidade, apego e satisfação residencial. A função de estimulação diz respeito aos aspectos do ambiente que estimulam comportamentos adaptativos, como atividades sociais e de lazer ou mesmo aqueles que reduzem ou ampliam problemas comportamentais em idosos com quadros de comprometimentos físicos e/ou cognitivos. Por fim, a função de suporte diz dos aspectos do ambiente que possuem o potencial para compensar competências perdidas ou reduzidas, aspectos também chamados de "próteses ambientais". Entre eles estão os fatores que promovem segurança, orientação e funcionamento independente. Dessa forma, evidencia-se a necessidade de construção de ambientes e espaços sociais que favoreçam a participação, a inclusão e o protagonismo das pessoas idosas. A promoção de contextos capazes de fortalecer vínculos sociais, ampliar oportunidades de convivência e estimular a autonomia constitui estratégia fundamental para enfrentar situações de exclusão e contribuir para a promoção da saúde e do envelhecimento saudável. Sousa et al. (2025). Entretanto, embora existam evidências acerca da influência dos determinantes sociais, das conexões sociais e da participação comunitária sobre a saúde mental das pessoas idosas, ainda são necessários estudos que investiguem como a percepção do ambiente se relaciona com a saúde mental em diferentes contextos sociais de envelhecimento. Compreender essa associação poderá contribuir para o desenvolvimento de estratégias e políticas voltadas à promoção do envelhecimento saudável e à redução das desigualdades em saúde entre diferentes grupos de pessoas idosas A importância em se conhecer a influência da percepção do ambiente se fundamenta pela relevância de que o ambiente exerce três funções básicas: manutenção, estimulação e suporte e no contexto de ambientes distintos, a percepção ambiental pode ser marcada pela despersonalização e pela perda de referências históricas, o que exige que certos ambientes forneçam uma ambiência que transmita acolhimento e conforto para preservar a saúde mental do indivíduo. A saúde mental da pessoa idosa é intrinsecamente ligada à sua transação dinâmica com o meio onde vive. Enquanto espaços de convivência buscam otimizar a autonomia e o pertencimento, as instituições de longa permanência podem apresentar pressões ambientais distintas que desafiam a competência adaptativa das pessoas idosas. Analisar como a percepção subjetiva dessas realidades socio físicas se associa aos estados afetivos e à integridade do self é crucial para compreender a heterogeneidade da saúde mental no envelhecimento (PASCALE CC, 2022; FREITAS, 2022) Considerando que o ambiente desempenha funções de manutenção, estimulação e suporte, torna-se relevante compreender como sua percepção pode influenciar a saúde mental das pessoas idosas inseridas em distintos contextos sociais Apesar dos avanços na compreensão dos determinantes sociais da saúde e dos fatores associados à saúde mental da pessoa idosa, ainda são escassos os estudos que investigam a associação entre percepção ambiental e saúde mental em diferentes contextos sociais de envelhecimento. Entre esses contextos destacam-se os espaços comunitários voltados à promoção do envelhecimento ativo e as instituições de longa permanência para pessoas idosas, cujas características ambientais e sociais podem influenciar de maneira distinta a experiência do envelhecimento. Existe associação entre a percepção ambiental e a saúde mental de pessoas idosas inseridas em diferentes contextos sociais?
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