Projeto de pesquisa, UFPB
Da Coleta ao Conhecimento: desafios e estratégias na consolidação da Coleção Entomológica DSEC e do registro da biodiversidade nordestina
Descrição
Os insetos, com estimativas que superam cinco milhões de espécies em todo o mundo, constituem o grupo mais diverso do reino animal. Exercem funções ecológicas essenciais, como polinização, decomposição, herbivoria, predação e controle biológico. No entanto, continuam subrepresentados em políticas e estratégias de conservação, sobretudo em regiões de intensa transformação antrópica. No Brasil, essa invisibilidade é ainda mais crítica no Nordeste, onde a diversidade entomológica permanece subdocumentada. A Paraíba abriga dois biomas de extrema relevância e contrastes marcantes: a Mata Atlântica, reconhecida como um dos hotspots mundiais de biodiversidade, com elevado endemismo e apenas 16% de sua cobertura original preservada; e a Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, que integra a diagonal de formações abertas da América do Sul e enfrenta severos processos de degradação ambiental. Em ambos os casos, a fragmentação de habitats, o desmatamento, o uso insustentável do solo e a urbanização desordenada têm provocado perdas expressivas na biodiversidade de insetos, impactando suas populações, interações ecológicas e serviços ecossistêmicos. Apesar de sua importância ecológica, evolutiva e econômica, a fauna de insetos da Paraíba segue pouco conhecida, com registros esparsos e limitados geograficamente. A ausência de dados dificulta o reconhecimento de áreas prioritárias para conservação, o monitoramento ambiental e a elaboração de políticas públicas baseadas em evidências. Nesse contexto, a taxonomia assume papel fundamental, pois fornece as bases para a identificação, descrição e classificação das espécies, viabilizando o mapeamento de sua distribuição, a análise de padrões ecológicos e a tomada de decisões em conservação. As coleções científicas, por sua vez, são instrumentos indispensáveis para a preservação do conhecimento biológico, reunindo espécimes que permitem revisões taxonômicas, estudos morfológicos e genéticos, e servindo como fonte permanente de dados históricos e ecológicos. No caso da Paraíba, onde ecossistemas vêm sendo rapidamente transformados, a consolidação de coleções biológicas como a DSEC torna-se ainda mais urgente, funcionando como repositório de uma fauna ameaçada, muitas vezes desconhecida da ciência. A proposta prevê inventários sistemáticos da entomofauna paraibana, com foco em áreas subamostradas e vulneráveis ambientalmente. Serão priorizados grupos taxonômicos pouco representados na literatura e nas coleções com alta probabilidade de novos registros. As atividades incluem a coleta de campo, identificação, curadoria, digitalização dos dados e sua disponibilização em plataformas abertas, fomentando colaborações científicas e o acesso público à informação. Na Mata Atlântica, as coletas serão realizadas em quatro remanescentes florestais prioritários: RVS Mata do Buraquinho, RPPN Engenho Gargaú, REBIO Guaribas e RPPN Fazenda Pacatuba. Essas áreas representam distintos microhabitats, estágios sucessionais e formações vegetacionais do bioma, sendo fundamentais para um diagnóstico abrangente da diversidade entomológica. Na Caatinga, as análises serão inicialmente baseadas no acervo existente na coleção DSEC, proveniente de áreas como a RPPN Fazenda Almas e o Assentamento Queimadas. Havendo disponibilidade orçamentária, novas expedições serão realizadas no bioma. A metodologia de coleta incluirá armadilhas padronizadas (Malaise, Van Someren-Rydon, luz branca e Luiz de Queiroz) e coletas ativas com rede entomológica, adaptadas à ecologia dos grupos-alvo. O material será triado, alfinetado, identificado com auxílio de bibliografia especializada e depositado na Coleção Entomológica da UFPB. Parte do excedente poderá ser encaminhado a outras coleções entomológicas de referência no país, promovendo o intercâmbio científico e a validação das identificações. Além da produção de conhecimento taxonômico, a proposta se destaca pelo seu caráter formativo. Serão ofertadas atividades de capacitação em taxonomia, coleta, montagem e curadoria de insetos, voltadas a estudantes de graduação. Com isso, pretende-se fortalecer a formação científica, estimular o interesse por áreas críticas do conhecimento biológico e ampliar a qualificação de jovens pesquisadores paraibanos em biodiversidade. O projeto também prevê a digitalização e sistematização dos dados obtidos, com inserção em bases padronizadas e de acesso aberto. Essa ação permitirá integrar a coleção DSEC a redes nacionais e internacionais de informação científica, aumentar sua visibilidade e contribuir com políticas de conservação baseadas em dados concretos. Espera-se ainda fornecer subsídios para o reconhecimento de áreas prioritárias para conservação, identificação de espécies novas ou endêmicas e compreensão de padrões biogeográficos regionais. Assim, a proposta Da Coleta ao Conhecimento apresenta-se como uma resposta estratégica aos desafios impostos pela perda de biodiversidade, contribuindo com dados essenciais sobre a entomofauna paraibana, fortalecendo a infraestrutura científica da UFPB, promovendo a formação de recursos humanos qualificados e impulsionando a conservação de dois dos biomas mais ameaçados do Brasil. Seu impacto transcende a pesquisa acadêmica, ao conectar ciência, educação e gestão ambiental, promovendo uma atuação integrada em defesa da biodiversidade nordestina.
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