Projeto de pesquisa, UFPB
MEDO, COMOÇÃO, RAIVA E OUTROS AFETOS EM TEMPOS DE GUERRA: UMA ANÁLISE DISCURSIVA DA MÍDIA NA COBERTURA DA CRISE HUMANITÁRIA EM GAZA (2ª Edição)
Descrição
Nossa história, que está cristalizada nos manuais didáticos e outros espaços de memória, é constituída por silêncios. Ao longo de nosso processo de escolarização fomos condicionados à assimilar a história sob a perspectiva do dominador/colonizador, pois conhecemos os nomes dos imperadores e inúmeras figuras que respondem por lugares de poder, mas são ocultados outros sujeitos partícipes dos acontecimentos. Mesmo com alguns avanços em direção a um revisionismo histórico, ainda persiste uma cultura eurocentrista. No clássico poema, “Perguntas de um trabalhador que lê”, o poeta alemão Berthold Brecht, nos convida a questionar quem são os sujeitos invisibilizados na história. Eles não existiram? Qual nome do escravo que construiu tal pirâmide? É interessante observar como o processo historiográfico é adornado por componentes emotivos – são os ditos (e não ditos) que buscam atingir o território dos afetos e são entendidos como discursividades. O modus operandi da história cultiva relações de proximidade com o fazer midiático - um terreno de disputas por audiência, especialmente na realidade contemporânea em que vigora a cultura do algoritmo. Na mídia, trava-se uma batalha pelas mentes e corações dos sujeitos contribuindo assim, na formação da opinião. Quando tal batalha se acirra em coberturas de guerra, por exemplo, estas e outras estratégias aparecem de modo ainda mais incisivo. É com base nessas discussões que nosso projeto se fundamenta e tem por título, “Medo, comoção, raiva e outros afetos em tempos de guerra: uma análise discursiva da mídia na cobertura da crise humanitária em Gaza” (2ª edição). O projeto é uma continuidade da pesquisa desenvolvida no edital de 2025 com o Pibic, “O medo em tempos de guerra: uma análise discursiva da mídia na cobertura da crise humanitária em Gaza”. Utilizando o método arquegenealógico (contribuição de Foucault), coletamos 55 matérias publicadas nos portais CNN Brasil e Brasil 247 e chegamos à conclusão de que ambos veículos utilizam o medo como forma de atingir os corações dos sujeitos. Ambos vão se diferenciar na forma como tratam a guerra. O primeiro utiliza o componente emocional, mas silencia o enunciado “genocídio” e instaura uma certa positividade na imagem do líder israelense. Já o Brasil 247 também utiliza imagens para sensibilizar os sujeitos, mas cultiva uma proximidade com a causa palestina. A primeira edição do projeto encontra-se na fase de organização de um e-book que visa socializar nossos achados. Para a vigência de 2026-2027 sentimos a necessidade de ampliar a pesquisa, identificando outros afetos envolvidos no ato de informar. Sabemos que a faixa de Gaza compreende um território dominado, há décadas, por violentas ocupações irregulares que atingiram seu ápice em 7 de outubro de 2023, com os ataques do grupo extremista Hamas. A reação do governo de Israel (e seus aliados) veio de forma instantânea. Desde 2023 estamos observando inúmeras ações bélicas que têm vitimado, em sua maioria, crianças e idosos. Especialistas de diferentes áreas do conhecimento afirmam que a crise em Gaza é considerada como a mais documentada em tempo real se comparada com outras guerras na história. Em um mundo cada vez mais dominado por visibilidades midiatizadas, as cenas advindas de Gaza tomaram proporções significativas despertando protestos em diferentes partes do mundo. Diante destes aspectos determinantes, nosso projeto (edição de 2025) se pautou em alguns questionamentos: Por que são evidenciados os nomes das vítimas israelenses, seu histórico, laços familiares e não encontramos uma isonomia de tratamento quando as vítimas são de origem palestina? E ainda: como as emoções em coberturas de guerra são operacionalizadas na mídia deixando evidentes alguns sujeitos em detrimento de outros? Em nossa primeira edição, vimos que há sempre um componente permanente que atravessa as disputas ideológicas: o medo. Foi através do medo que regimes extremistas se desenvolveram, vigoraram (e ainda vigoram) em nossa história. Vários são os medos difundidos na contemporaneidade com nuances do passado: medo do comunista, medo do imigrante, medo de pandemias, medo de ter medo. É por meio da disseminação do medo que países invadem outros países e ocupam territórios utilizando a força. O medo compreende, pois, um dispositivo de poder que visa exercer controle e dominação em uma sociedade vulnerável e “esquecida” pelos órgãos internacionais. No campo discursivo midiático ele se materializa de diferentes formas: na escolha dos enunciados verbais, no projeto de diagramação, na projeção da câmera, na voz do jornalista e até mesmo no silêncio. Em meio à tantas tecnologias utilizadas para a fabricação da informação, enquanto analistas do discurso somos instigados a pensar como tais práticas promovem efeitos de sentido em uma dada condição de produção. Para além da problematização do medo, amplamente discutido na edição 1 do projeto, pensamos em aprofundar a discussão, buscando problematizar o processo discursivo midiático como espaço de poder e produção de regimes de verdade. Por tais razões, resolvemos, nesta segunda edição, aglutinar outras emoções, tais como: comoção, raiva, e outros afetos, pois “seja qual for a função predominante e o funcionamento específico de um texto, sua constituição histórica, sua formulação linguística e sua circulação social suscitam ou intensificam afetos nas mais diversas interlocuções”. (Piovezani, Curcino e Sargentini, 2024, p.7). O projeto está alinhado à área de Educação de Qualidade, um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). De natureza qualitativa, objetivamos problematizar como as estratégias mobilizadas no discurso midiático instigam emoções nos sujeitos. Assim, em articulação com as ações do grupo de Pesquisa, Discurso, Ensino e suas Interfaces (http://dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/793903) e na esteira de alguns teóricos como, Foucault, Courtine, Charaudeau nos interessa, deste modo, analisar os mecanismos disciplinares materializados na malha discursiva midiática. Para tanto, selecionamos, além dos portais CNN Brasil, Brasil 247, os portais G1 e Diário do Centro do Mundo. Pesquisas sobre coberturas de guerra já vêm sendo desenvolvidas por nós desde 2022. Nos editais de 2022 e 2023 pesquisamos a dor seletiva da mídia na cobertura da guerra entre Rússia e Ucrânia. Os projetos intitulados respectivamente, “A cobertura da guerra na Ucrânia e a dor seletiva da mídia (inter)nacional: o discurso e seus mecanismos de exclusão” e “A cobertura da guerra na Ucrânia e a dor seletiva da mídia (inter)nacional: discurso, produção de sentido e a busca pela paz (2ª edição)” resultaram em dois e-books publicados pela editora Pedro & João (Disponíveis respectivamente em: https://pedroejoaoeditores.com.br/produto/este-nao-e-um-lugar-como-o-iraque-ou-afeganistao-e-uma-cidade-relativamente-civilizada-o-discurso-seletivo-da-midia-internacional-na-cobertura-da-guerra-entre-russia-e-ucrania/ e https://pedroejoaoeditores.com.br/produto/a-cobertura-da-guerra-na-ucrania-e-a-dor-seletiva-da-midia-inter-nacional-discurso-producao-de-sentido-e-a-busca-pela-paz-vol-2/). A pesquisa comprovou que os dois portais, CNN Brasil (identificado como um veículo neoliberal) e Brasil 247 (identificado como um portal progressista), possuem relações de proximidade e distinção em relação aos acontecimentos. O primeiro narra a crise entre Rússia e Ucrânia apontando o presidente Vladimir Putin como vilão e se aproxima do discurso norte-americano. Já o portal Brasil247, embora reconheça a grave violação promovida por Vladimir Putin, faz uma crítica aos posicionamentos do presidente Volodymyr Zelensky e o governo norte-americanos em não evidenciar o jogo de proximidade com grupos simpatizantes do nazismo. Desta forma, o posicionamento político-ideológico se reflete na materialidade discursiva. A necessidade de continuar com a pesquisa justifica-se pelos seguintes fatores: a) os massacres continuam e agora se estendem para o Irã. Mesmo que a crise no Irã não seja nosso foco, é inevitável não mencionar esta guerra e suas ressonâncias em Gaza; b) necessidade de ampliação dos portais: além da CNN Brasil e Brasil 247 pensamos em trabalhar com mais dois portais: G1 e Diário do Centro do Mundo estabelecendo relação de convergência e divergência entre eles. c) alinhar a pesquisa com as investigações contemporâneas da Análise do Discurso, especialmente quanto à problematização das emoções. d) aprofundamento de leituras sobre a questão palestina e o sionismo em articulação com a difusão e crescimento do extremismo e suas “ressonâncias” no terreno midiático. Uma pesquisa desta natureza requer alguns desafios: Primeiramente porque não há um distanciamento histórico, pois os acontecimentos estão se reatualizando em cada minuto. Soma-se a isso, a dificuldade com a tão sonhada veracidade das informações, que exige do pesquisador um olhar minucioso para outras fontes além dos veículos selecionados. Outro desafio compreende a temática do projeto: guerra é um tema sensível, de modo que as materialidades midiatizadas trazem imagens fortes, típicas de um cenário de destruição. Outro desafio, já identificado na primeira edição, deve-se à mudança no fluxo das informações. Diferentemente de 2023 (início dos ataques do Hamas) quando os acontecimentos apareciam em primeiro plano, agora, após 3 (três) anos de conflito, temos uma escassez de conteúdos –um silenciamento ensurdecedor, ou seja, Gaza parece não ser mais prioridade, embora o genocídio continue. Metodologicamente, seguiremos alguns procedimentos necessários em nossa pesquisa: teremos momentos de leitura e discussão sobre os conceitos teóricos abordados, envolvendo além dos temas da área de discurso, questões de geopolítica focalizando a questão Palestina. Em seguida, faremos a coleta de materiais (reportagens veiculadas nos portais citados). Os dados serão qualificados e compartilhados em eventos específicos em conformidade com as diretrizes deste edital. Como produto, além de artigos em periódicos, pensamos em publicar o segundo volume do e-book. A relevância da pesquisa compreende em ofertar uma oportunidade para que discentes da graduação se envolvam com pesquisa, especialmente estabelecendo uma relação entre a teoria e as práticas contemporâneas. Propiciamos, assim, a visibilidade dos estudos desenvolvidos em nossa universidade em alinhamento com as diretrizes deste edital.
Candidatar-se
Entre na sua conta para enviar uma carta de intenção à coordenação deste projeto.