Projeto de pesquisa, UFPB
A Carnalidade da Diferença e a Justiça do Terceiro: uma Crítica Ético-Hermenêutica aos Discursos da Psicologia Escolar sobre a Educação Inclusiva
Descrição
O projeto de pesquisa visa aprofundar a investigação sobre a alteridade encarnada da pessoa com deficiência, fundamentando-se na carnalidade ética e na justiça dos terceiros presentes na obra madura de Emmanuel Levinas, especialmente em Autrement Qu'Être. Esta fase da investigação marca uma transição metodológica em relação ao ciclo anterior: enquanto a etapa anterior focou em tensionamentos teóricos e epistemológicos sobre as representações do corpo nas Ciências Humanas, o presente projeto adentra o cenário empírico-discursivo da Psicologia Escolar. O objetivo central é analisar, por meio do método do Estado da Arte, operacionalizado por uma revisão integrativa da literatura, os sentidos e os modelos de inteligibilidade atribuídos ao corpo e à corporeidade nas práticas contemporâneas de educação inclusiva produzidas entre 2021 e 2026. Historicamente, a atuação da Psicologia no cenário escolar brasileiro foi marcada por um viés clínico e psicométrico, centrado na identificação de deficits individuais e na segregação daqueles considerados "anormais". Embora o paradigma atual busque a eliminação de barreiras institucionais, persistem mecanismos sutis de exclusão pautados em expectativas homogêneas de desenvolvimento, que acabam por reduzir o corpo dissidente a diagnósticos mecânicos. Diante disso, o projeto propõe que a inclusão exige o reconhecimento da deficiência como expressão da diversidade humana e uma interrupção da lógica de normalização que busca a domesticação da alteridade. A fundamentação teórica articula-se a partir da Ética como Filosofia Primeira de Levinas, que desloca o primado do Eu e do conhecimento para a responsabilidade infinita e assimétrica para com o Outro. Nessa perspectiva, o corpo não é meramente um organismo ou objeto de estudo, mas transfigura-se em carne exposta na sensibilidade ética, manifestando-se em três modos-que-ser: o corpo próprio (marcado pela hipóstase e cuidado de si), o corpo impróprio (atravessado pela substituição ética e responsabilidade pelo sofrimento alheio) e o corpo social (onde a irrupção do terceiro clama por justiça e igualdade). Esse arcabouço dialoga diretamente com a Segunda Geração do Modelo Social da Deficiência, que contrapõe os princípios de cuidado e interdependência ao ideal liberal de autonomia individual, compreendendo a deficiência como uma experiência interacional entre impedimentos biológicos e barreiras sociais e políticas. Os objetivos do estudo consistem em investigar criticamente os sentidos atribuídos ao corpo na Psicologia Escolar, mapear as matrizes normativas que sustentam as práticas de inclusão e tensionar as dinâmicas de disciplinamento dos corpos à luz da carnalidade levinasiana. Busca-se, ainda, propor diretrizes teórico-filosóficas que auxiliem a atuação do psicólogo escolar no desenvolvimento de redes de cuidado, superando o capacitismo estrutural e promovendo a responsabilidade para com o Outro. A pesquisa justifica-se pela necessidade de prover bases éticas para a formação profissional frente aos novos direcionamentos das políticas públicas de Educação Especial Inclusiva, como a lançada em 2025, assim como nos documentos de orientações aos profissionais da área sobre como trabalhar com pessoas com deficiência, elaborados pelo Conselho Federal de Psicologia. Metodologicamente, a pesquisa realiza uma revisão integrativa com busca nas bases de dados PePsic, SciELO, CAPES e BDTD, utilizando descritores que cruzam "Psicologia Escolar", "Educação Inclusiva", "Corpo" e "Pessoa com Deficiência". O processo de análise organiza-se em três polos: pré-análise e sistematização; análise do material com categorização temática; e tratamento dos resultados por meio de uma análise qualitativa ético-hermenêutica. Esta última etapa busca a "fusão de horizontes", onde o ato de interpretar renuncia ao desejo de capturar ou totalizar o sentido da alteridade para responder eticamente à sua interpelação. Os resultados esperados incluem a produção de subsídios conceituais para qualificar a formação de estudantes de Psicologia e Educação na UFPB, o fortalecimento da formação científica por meio da elaboração de artigos e relatórios, e a contribuição para políticas públicas institucionais que acolham a alteridade radical como valor constitutivo da condição humana. Com isso, espera-se que o projeto ofereça novos horizontes para pensar a deficiência não como uma falta ou inadequação, mas como uma possibilidade de ressignificação das categorias de humanidade e justiça social.
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