Projeto de pesquisa, UFPB
Entre o frenesi do corpo bacante e a clarividência ébria da palavra: a tessitura do desejo na literatura contemporânea
Descrição
O sexo, a sexualidade e suas múltiplas declinações — o sexual, em sua materialidade pulsional — coexistem com a fetichização do objeto, a voracidade fantasmática, o domínio surdo da instância superegoica, de modo que o sujeito, ainda que encapsulado na membrana civilizatória, permanece suscetível ao chamamento do estranho, do interdito, daquilo que tangencia pactos mortíferos que conferem à experiência humana uma moldura de fascínio e frustração. É precisamente no intervalo entre o proibido e o permitido que o recalque se transmuta em motor de criação, mobilizando desvios que se erguem como arquiteturas improvisadas em prol de migalhas de gozo — migalhas, por vezes, mais saturadas de potência que qualquer pretensa totalidade. Não por acaso, ao longo da tessitura histórica, o sujeito ocidental encontrou, nos interstícios do erótico e do pornográfico, um atalho para roçar o indizível da sexualidade, tangenciando o interdito como quem fareja, na obscenidade, uma chave para o que a linguagem insiste em elidir. As narrativas, imagens e dispositivos que sustentam tais representações multiplicaram-se em vertentes e gêneros diversos, expondo o corpo em coreografias de alteridade que solapam binarismos canônicos — ativo e passivo, masculino e feminino, normativo e desviado — dissolvendo-os na névoa turva das pulsões perversas que insistem em escapar ao controle da moralidade hegemônica. Sob a lente dos estudos psicanalíticos e semióticos, propõe-se, pois, uma investigação que se debruce sobre as engrenagens simbólicas de sistemas audiovisuais, examinando a tessitura erótico-pornográfica como palco no qual sujeitos e personagens, em igual medida, se perdem de si para, paradoxalmente, reencontrar-se em atos ora de gozo, ora de angústia, mas sempre assinalados pela marca do desejo como hiância. Trata-se, em última instância, de perscrutar os contornos de um teatro onde a cena sexual, longe de se reduzir à mera exibição do corpo, encena — de forma velada e reiterativa — a impossibilidade mesma de dizer tudo sobre o sexo.
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