Projeto de pesquisa, UFPB
Quando os aparelhos disciplinares constringem a carne, o desejo deflagra suas evasões: existências indóceis inauguram novas gramáticas do encontro com o Outro
Descrição
Inscrita nos interstícios mais recônditos da constituição histórica do imaginário humano e reiteradamente condenada ao ostracismo discursivo pelos dispositivos ideológicos da tradição normativa, a homossexualidade — ou, mais precisamente, as práticas, os gestos e as subjetividades que se articulam sob a égide do homoerotismo — constitui-se como um signo complexo, multifacetado e profundamente enredado nas tramas simbólicas do interdito, da anátema moralizante e da violência estrutural legitimada por epistemologias hegemônicas. Embora se perceba, com matizes por vezes ambíguos, um movimento gradual de desessencialização e desnaturalização dessas identidades no cenário contemporâneo, tal deslocamento ainda não logrou subverter, em sua plenitude, os mecanismos de opressão e apagamento que insistentemente subscrevem os corpos dissidentes a categorias clínicas, jurídicas ou religiosas que os patologizam, inferiorizam ou simplesmente os lançam à abjeção. Nesse contexto de constante tensão entre visibilidade e invisibilização, torna-se imperativo convocar os aparatos críticos advindos dos Estudos Queer, da teoria literária e da psicanálise freudo-lacaniana, como instrumentos analíticos capazes de desvelar as estruturas de poder que moldam os regimes de gênero e sexualidade e os meandros subjetivos pelos quais o desejo se inscreve no simbólico, escapa ao imaginário normativo e reconfigura, no âmbito estético da linguagem literária, as topografias do afeto, do gozo e da alteridade radical. É no texto literário, enquanto espaço de condensação do inconsciente e da pulsão, que o homoerótico se desdobra em uma miríade de figuras, espectros e metáforas que não apenas resistem à categorização simplista, mas também instauram zonas de ambivalência, deslocamento e transgressão, tensionando os códigos da representação e instaurando novas gramáticas do sensível. Tal como nos adverte a tradição psicanalítica, especialmente a partir da releitura lacaniana do desejo como falta constitutiva e do sujeito como efeito de linguagem, é impossível pensar o erótico — e, por extensão, o homoerótico — como mera expressão de uma identidade pré-discursiva ou de uma natureza originária. O desejo, enquanto pulsão que se articula na cadeia significante e que se sustenta pela impossibilidade de sua plena realização, encontra na literatura um território privilegiado para sua encenação, justamente porque esta não opera na ordem da transparência referencial, mas na opacidade simbólica do enigma e da multiplicidade interpretativa. A homossexualidade literariamente figurada, portanto, não deve ser compreendida como reflexo mimético de um dado social, mas como estrutura poética que mobiliza o imaginário, subverte o logos normativo e propõe formas alternativas de subjetivação. Com efeito, o presente projeto propõe-se a examinar, com o rigor que exige o trato com o simbólico e com a densidade estética dos textos literários, as modalidades de representação do homoerotismo que se engendram no e pelo discurso ficcional, em consonância com as epistemes queer e com os pressupostos hermenêuticos da crítica literária contemporânea. Não se trata, aqui, de elencar personagens homossexuais ou de quantificar ocorrências temáticas, mas de adentrar os labirintos do texto para perscrutar de que maneira o desejo entre iguais — esse desejo que desafia a matriz heterocentrada da cultura ocidental — se articula como força subversiva, como sintoma social e como estetização do inconsciente. Ao tomar a literatura como campo de inscrição do desejo e como lugar de emergência do indizível, buscamos instituir um horizonte crítico no qual a análise estética e a escuta psicanalítica possam operar em conjunção, abrindo espaço para a emergência de novas formas de pensar o sujeito, o corpo e o laço social. Assim, longe de buscar uma normalização ou assimilação das diferenças sexuais ao interior de um discurso conciliatório, pretende-se aqui afirmar a potência disruptiva da alteridade, acolhendo a literatura como artifício de desestabilização, como convite à errância interpretativa e como instrumento de elaboração simbólica dos traumas, dos fantasmas e dos excessos que constituem a experiência humana em sua inteireza.
Candidatar-se
Entre na sua conta para enviar uma carta de intenção à coordenação deste projeto.