Projeto de pesquisa, UFPB
Da aposta ao ativo: financeirização da cultura, economia política do jogo e a desassociação histórica entre apostar e investir no capitalismo de plataforma
Descrição
A literatura recente sobre regulação de jogos de apostas distingue dois tipos de resposta política: intervenções centradas no indivíduo (i-frame), que tratam o comportamento do apostador como objeto de correção, e intervenções centradas na estrutura (s-frame), que tratam a infraestrutura de mercado — pagamentos, design de produto, modelo de negócio — como objeto de regulação (Chater; Loewenstein, 2026). O programa de pesquisa em que este projeto se insere — o Observatório de Bets, sediado no LENS/UFPB — vem demonstrando, por meio de análise documental, requisições de acesso à informação e auditoria de design de plataforma, que a regulação brasileira do setor de apostas online opera quase inteiramente no registro do i-frame: autolimites cadastrais, autoexclusão, verificação de idade. A infraestrutura que torna a perda sistemática — sobretudo a camada de pagamento instantâneo via Pix e a financeirização simbólica do produto — permanece, até o momento, fora do escopo regulatório. Este projeto propõe aprofundar teoricamente um aspecto específico desse diagnóstico, que vem sendo tratado no programa de forma instrumental e que ainda não recebeu tratamento teórico sistemático: a desassociação histórica entre jogo de azar e investimento financeiro como categorias jurídicas e culturais, e a reaproximação contemporânea entre as duas, sob a forma do que o programa vem chamando de "financeirização simbólica" — a operação de design e discurso que apresenta a aposta como ato de investimento, e o apostador como "trader" ou "investidor", e não como jogador. A hipótese de trabalho é que essa reaproximação não é um fenômeno isolado do mercado de apostas esportivas brasileiro, mas uma manifestação local de um processo mais amplo e mais antigo: a financeirização da cultura, entendida não apenas como o crescimento do poder econômico do setor financeiro, mas como a migração de métricas, narrativas, metáforas e disposições subjetivas financeiras para fora do setor financeiro e para o interior da vida cotidiana (Haiven, 2014; 2020). Esse processo tem uma temporalidade própria, que remonta ao fim do sistema de Bretton Woods e à financeirização da economia estadunidense nos anos 1970-1980, atravessa a contrarrevolução neoliberal como projeto não apenas de desregulação, mas de produção de subjetividade — o indivíduo como gestor de portfólio de si mesmo (Martin, 2002) —, e desemboca, já no presente, na convergência observável entre apostas esportivas de quota fixa, day trading de varejo e especulação em criptoativos como interfaces de um mesmo circuito especulativo, voltadas a uma população estruturalmente semelhante: majoritariamente jovem, masculina, com mobilidade econômica bloqueada (Haiven, 2023; 2026). O projeto está estruturado em dois planos de trabalho complementares, mas distintos em método e em produto, de modo a oferecer a dois(duas) discentes de iniciação científica experiências formativas diferenciadas dentro do mesmo núcleo teórico. O primeiro plano de trabalho é de natureza bibliográfica: consiste na reconstrução sistemática, por meio de revisão de literatura, da escada histórica e teórica que liga a financeirização macroeconômica (décadas de 1970-1980) à financeirização da subjetividade sob o neoliberalismo e, desta, à financeirização da cultura popular tal como descrita pela obra de Max Haiven e autores correlatos (Randy Martin, entre outros), com atenção específica à literatura emergente sobre a convergência cultural entre apostas, criptoativos e day trading de varejo. O produto esperado é uma revisão de literatura estruturada, que servirá de base teórica citável para as publicações em curso no programa, em especial o artigo "O complexo especulativo de varejo" e os estudos sobre financeirização simbólica e design de plataforma. O segundo plano de trabalho é de natureza empírico-analítica: consiste na aplicação de um instrumento de codificação, a ser desenhado em conjunto com o(a) discente como parte de seu treinamento metodológico, a um corpus de plataformas de apostas esportivas online licenciadas no Brasil, com o objetivo específico de identificar e mensurar a presença de financeirização simbólica no design e no discurso dessas plataformas — uso de vocabulário de investimento, métricas de tipo financeiro, estética de mercado de capitais, e estruturas de interface que convidam à leitura da aposta como decisão de portfólio. Este plano de trabalho mantém-se deliberadamente distinto, em escopo e em corpus, de um projeto correlato já em curso no programa sobre financeirização simbólica e masculinidade, de modo a evitar duplicação e a permitir, no médio prazo, comparação entre os dois corpora e os dois instrumentos. O projeto se justifica como serviço de interesse público: ao tornar explícita e teoricamente fundamentada a operação de financeirização simbólica que está na origem do enquadramento da aposta como investimento — operação que tem efeito direto na percepção de risco do apostador e, portanto, na eficácia ou ineficácia de políticas de proteção centradas no indivíduo —, o projeto fornece subsídio analítico a formuladores de política pública, órgãos de defesa do consumidor e pesquisadores de saúde pública ocupados com a chamada epidemia de apostas no Brasil. A reconstrução teórica e a auditoria empírica aqui propostas não ficam configuradas como antagonistas, mas oferecem evidência convergente, oriunda de métodos distintos, para o mesmo argumento estrutural já sustentado pelo programa: o problema das bets no Brasil não é prioritariamente comportamental, é de desenho institucional e de infraestrutura.
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