Projeto de pesquisa, UFPB
Urbanismo errante e experiências de alteridade na cidade contemporânea.
Descrição
A proposta de pesquisa aqui apresentada insere-se no campo da Teoria do Urbanismo e tem como objeto de investigação as experiências de alteridade na cidade contemporânea. Além de se constituírem como formas de resistência e crítica à produção de espaços marcados pela mercantilização, espetacularização e consequente perda da corporeidade e da experiência sensível (Harvey, 2004), os debates relacionados a essa temática vêm adquirindo crescente relevância por valorizarem o homem ordinário que, nas palavras de Certeau (1990), caminha pela cidade, vivencia-a, detém-se em seus percursos, confunde-se e perde-se. Paola Berenstein Jacques (2006; 2012) reforça a importância da alteridade urbana, compreendida como a experiência do Outro, do diferente. No campo da Arquitetura e Urbanismo, um dos principais desafios das práticas de ensino e pesquisa consiste em proporcionar experiências que permitam a incorporação de conhecimentos, saberes e atores frequentemente marginalizados pelos processos hegemônicos de produção do espaço. Conforme destacam Carlos (2004), Delgado (2011) e Harvey (2013), os processos contemporâneos de mercantilização e espetacularização urbana estão frequentemente associados a políticas e intervenções que buscam eliminar dissensos, conflitos e tensões, produzindo espaços progressivamente esterilizados, domesticados e empobrecidos de experiências corporais. Torna-se, portanto, fundamental abrir possibilidades para a construção de novas formas de compreender, representar e intervir na cidade, considerando seu contexto histórico-social, os saberes tradicionais e os marcadores sociais da diferença que conformam a experiência urbana contemporânea. Nesse sentido, Jacques (2006) propõe a figura do “urbanista errante”, entendido como uma postura diante do urbanismo enquanto disciplina e prática, caracterizada pela busca de experimentar a cidade através do corpo e das vivências cotidianas. A errância é compreendida como uma atitude em relação à cidade, um movimento contra hegemônico que privilegia a experiência sensível do espaço urbano por meio do caminhar, da deriva, da observação e da abertura ao encontro com o inesperado. Trata-se de uma forma de apreensão da cidade que valoriza os percursos, os afetos e as práticas cotidianas, possibilitando a construção de conexões mais profundas com o espaço urbano e, consequentemente, com a alteridade (Fiorin, 2022). Convém esclarecer, com base nesses autores, que a errância é um fenômeno a ser investigado, assim como uma perspectiva metodológica e epistemológica para acessar as experiências de alteridade. Ganen (2024) observa que a sociedade contemporânea, fortemente influenciada pelas lógicas neoliberais e pelo estímulo ao consumo, tende a demandar profissionais alinhados às dinâmicas do mercado global. Nesse contexto, torna-se imprescindível refletir criticamente sobre os processos formativos em Arquitetura e Urbanismo, frequentemente marcados pela fragmentação do conhecimento e pelo distanciamento entre teoria, prática e experiência urbana. Diversas pesquisas têm apontado a necessidade de estratégias de integração curricular, metodologias de ensino-aprendizagem mais sensíveis às experiências cotidianas e processos de projeto comprometidos com aspectos humanos, corporais, culturais, ambientais e sociais. Tais abordagens buscam formar profissionais capazes de compreender criticamente a cidade contemporânea e atuar na construção de espaços mais inclusivos e democráticos (Adrião, 2026; Rocha et al., 2026; Oliveira et al., 2025; Fiorin, 2022; Freire, 2018). Devido ao amplo escopo tratado, a pesquisa “Urbanismo errante e experiências de alteridade na cidade contemporânea” assume o caráter de projeto guarda-chuva, articulando diferentes agendas de investigação vinculadas ao campo da Arquitetura e Urbanismo. A partir do eixo central das experiências urbanas de alteridade, torna-se possível desenvolver estudos relacionados ao patrimônio cultural, mobilidade urbana, acessibilidade, gênero, migração, paisagem, educação, planejamento urbano e demais temas que dialoguem com a produção social do espaço. Além disso, a proposta favorece o diálogo interdisciplinar com áreas como Geografia, Antropologia, História, Direito e Ciências Sociais. Partindo da hipótese de que ainda é possível encontrar na cidade contemporânea experiências urbanas que escapam às lógicas hegemônicas de mercantilização, espetacularização e homogeneização do espaço urbano, emerge a seguinte questão central de pesquisa: Como experiências urbanas de alteridade se manifestam na cidade contemporânea e de que maneira podem contribuir para novas formas de compreender, ensinar e intervir sobre o espaço urbano? Como desdobramento dessa questão principal, outras perguntas orientam as pesquisas vinculadas ao projeto: Quais práticas cotidianas ainda escapam às lógicas hegemônicas de produção da cidade? Como diferentes sujeitos produzem formas alternativas de apropriação do espaço público? Como práticas de ensino e pesquisa baseadas na alteridade e na errância urbana podem contribuir para a formação de arquitetos e urbanistas mais críticos? Quais metodologias de investigação urbana podem ser incorporadas aos processos de diagnóstico e intervenção urbana? Quais contribuições a alteridade urbana pode oferecer para aproximar os campos do urbanismo, patrimônio cultural, geografia, antropologia e planejamento urbano? Diante disso, o objetivo geral da pesquisa seria: Compreender como experiências de alteridade e práticas de errância urbana se manifestam na cidade contemporânea e de que forma possibilitam a construção de novas formas de apreensão, representação, ensino e intervenção sobre o espaço urbano. A proposta busca dar continuidade às atividades desenvolvidas por um grupo de pesquisa em andamento desde 2020, consolidando uma agenda voltada às experiências urbanas de alteridade. Ao longo desse percurso, foram experimentadas e aperfeiçoadas metodologias de investigação sensível da cidade, como errâncias urbanas, observação participante, cartografias sensíveis e práticas colaborativas, que constituem a base teórico-metodológica da presente pesquisa. Por fim, além de contribuir para o avanço das discussões teóricas sobre experiência urbana, alteridade e errância, a proposta busca fortalecer a integração entre ensino, pesquisa e extensão, promovendo a formação de estudantes e pesquisadores comprometidos com a construção de cidades mais democráticas, inclusivas e sensíveis à diversidade de sujeitos, territórios e modos de vida presentes na contemporaneidade.
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