Projeto de extensão, UNB
Mestras e mestres raizeiros e a patrimonialização de um ofício tradicional
Descrição
Esta proposta de extensão visa estabelecer diálogos interepistêmicos com guardiões e guardiãs dos saberes ancestrais, que lidam com o bioma Cerrado, vivido intensamente por comunidades indígenas, quilombolas e de periferias urbanas como um território de cuidado, de pertencimento e guarda de memória de coletivos que manejam o bioma, tendo como referência o cuidado. Nesse sentido, esta proposta visa potencializar conhecimentos tradicionais de mestras e mestres que permitem o manejo deste bioma, o qual se encontra ameaçado diante de planos governamentais e econômicos que ignoram a potencialidade desse. O processo de extinção vivido pelo Cerrado também é uma prática epistemicida dos conhecimentos tradicionais de povos e comunidades cerratenses. Esses conhecimentos se fizeram na interação com o conjunto de seres vivos, minerais, águas, humanos e mais que humanos que o habitam. Guardiãs e Guardiões de saberes ancestrais como as raizeiras e os raizeiros que atuam em comunidades do bioma Cerrado, estão vendo plantas, animais, águas se esvaírem conjuntamente com todo o conhecimento que dominam sobre o bioma assim como suas técnicas e práticas tradicionais que se relacionam com a vida no bioma. Essas/es mestras/es são figuras centrais no cuidado com a vida plena do Cerrado e das pessoas, de onde retiram medicamentos, alimentos e inspiração para a vida. Enfatizar a centralidade dessas/es cuidadoras/res da vida de pessoas e do Cerrado é reconhecer sua presença atuante na conservação do bioma e, ao mesmo tempo, complementando ações dos serviços de saúde, de educação e ambiental. Também são pensadoras/es, filósofas/os, influentes que dinamizam epistemes que conectam conhecimentos sobre o Cerrado e sobre o cuidado com as pessoas. Essas guardiãs e guardiões criam processos formativos de transmissão de conhecimentos ancestrais que divulgam epistemologias, formam crianças e jovens de forma inovadora e potente relacionando o vivido com a criação de um pensamento cuidadoso sobre o bioma e a vida em suas diversas dimensões. Dominam uma epistemologia sobre as matas, águas, animais e minerais do Cerrado e projetos de bem viver. Dinamizam saberes localizados que apresentam uma perspectiva de atuação nas escolas, nos serviços de saúde e ambientais. Nesse sentido, contam histórias que compõem o mosaico cultural que forma o Brasil, constituindo um ofício tradicional, de raizeiras e raizeiros do Cerrado, como patrimônio cultural do Brasil. No dia 10 de junho de 2026, o Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico eArtístico Nacional (IPHAN) aprovou, por unanimidade, o Ofício de Raizeiras e Raizeiros doCerrado como patrimônio cultural do Brasil. A pesquisa para esta patrimonialização foi coordenada pela professora que apresenta esta proposta. As raizeiras do Cerrado são guardiãs das ciências das plantas e se inserem no conceito de"Mestres e Mestras" da política de patrimônio. Diante dessa ação, mantemos vínculos com diversas lideranças comunitárias da Vila de São Jorge, vinculada à Associação de Moradores de São Jorge (ASJOR), com raizeiras e raizeiros da Associação do Quilombo Kalunga (AQK), com Dona Cecília, raizeira da Associação do Quilombo São Domingos, com Dona Neide e Seu Ilton da rede de Raizeiros de Pirenópolis, com Lucely Pio e Tantinha, raizeiras da Articulação Pacari, com Dona Feliz, raizeira de Natividade, com Cleonice Pankararu, raizeira de comunidade indígena Pankararu no norte de MG, e com Dona Josefa, raizeira de São Sebastrião dentre outras. As raizeiras e raizeiros detêm Notório Saber, o que nos conduz a já trazer aqui os contornos sobre quem são essas pessoas e como defini-las. Ter Notório Saber é viver também a condição de mestra ou mestre de ofício, essa condição abarca quatro princípios, de acordo com a política de patrimônio cultural, assim, são pessoas que: 1. Conhecem a técnica do ofício em todas as suas fases, em todo o processo. No caso das raizeiras, elas conhecem o percurso que vai do manejo das plantas no Cerrado — passando pelo plantio, pela coleta/cultivo da planta e pela identificação — até a indicação e preparação do remédio caseiro: inclui a leitura do adoecimento da pessoa, a relação corpo/pessoa/planta e a confecção do remédio.; 2. Ensinam e transmitem esse conhecimento; 3. São reconhecidas pela comunidade; 4. São sábias e detêm uma sabedoria vivida — uma experiência incorporada e memorizada na prática — que as torna éticas. As raizeiras e raizeiros do Cerrado são mestras e mestres de ciências ancestrais das plantas medicinais. Esta proposta, portanto, dialoga com a política cultural de patrimônio, pois visa a documentação e salvaguarda de conhecimentos tradicionais relativo ao bioma Cerrado, de grupos formadores da sociedade brasileira, que contam a história do Brasil em sua diversidade e que foram por muito tempo silenciados. Também se refere às políticas ambientais e territoriais, pois discute a importância de ter o bioma Cerrado conservado e revela tecnologias produzidas por povos e comunidades tradicionais que atuam de forma sustentável no bioma. Nesse sentido, o Cerrado deve ser visto como território tradicional de muitas comunidades. Por conseguinte, esta proposta visa estabelecer diálogo com as comunidades, expandir e fortalecer vínculos, buscando justiça social para essas pessoas e o bioma, abrindo outras frentes de extensão e pesquisa assim como nos planos de docência nos cursos da UnB. A presente proposta visa sistematizar as informações sobre o processo de patrimonialização eos dados levantados na pesquisa e estabelecer diálogo com essas mestras e mestres para criar produtos que possam fomentar, salvaguardar e divulgar esse ofício. Tendo em vista que a presenta proposta visa o fortalecimento de direitos e protagonismo das raizeiras/raizeiros; a formação crítica e cidadã de estudantes; a produção de acervos emateriais que promovam os conhecimentos tradicionais, enfatizamos aqui que a relação comas raizeiras e raizeiros do Cerrado supõe debates sobre igualdade de gênero e étnico racial, justiça socioambiental e práticas sustentáveis alinhadas ao PPA e aos ODS. Estaremos diantede pessoas com marcadores sociais de gênero, classe, raça e etnia, além da discussãoambiental que é fundamental para manter esse patrimônio cultural. Com relação às ODS, compreendemos que a proposta dialoga com as questões: • Educação de qualidade (ODS 4): integração em disciplinas, oficinas educativas, materiaispedagógicos e excursões didáticas. • Igualdade de gênero (ODS 5): protagonismo feminino e políticas de reconhecimento dossaberes tradicionais. • Redução das desigualdades (ODS 10): inclusão de comunidades marginalizadas, acesso aplataformas de visibilidade e geração de renda cultural. • Cidades e comunidades sustentáveis (ODS 11): criação/fortalecimento de espaços dememória comunitária e práticas de pertença territorial. • Ação contra a mudança do clima (ODS 13): difusão de práticas de manejo sustentável edebates sobre impactos climáticos no Cerrado. • Igualdade étnico racial (ODS 10/5 interseccional): ações antirracistas e reconhecimento desaberes tradicionais. Estaremos em diálogo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) com associações de raizeiras e raizeiros, em especial: Articulação Pacari (diversas áreas de GOe TO), Chá da Terra em São Sebastião (GO), e Casa das Ervas em Pirenópolis (GO). Estaremos em diálogo com a comunidade de Raizeiras e Raizeiros do bioma Cerrado,portanto, trata-se de uma proposta de âmbito regional, nos estados de TO e GO.
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